“Monumento a um Jovem Monolito”, André Dahmer

Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem, o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.

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“Amor Bandido”, Felipe Tazzo

Meu amor surgiu na calada da noite, abriu lentamente uma frestinha na minha janela e se esgueirou para dentro, pé ante pé, pulsação ante pulsação, assim como fazem os gatunos. Especializados na arte do crime, surgem do nada e quando você percebe o que está acontecendo, ele já está longe, com um sorriso maroto no canto dos lábios e um saco preto jogado nas costas, dentro do qual está tudo o que você achava que ninguém nunca poderia lhe tirar.

Assim foi comigo. Meu amor entrou quieto e saiu calado, mas não sem ter feito da minha vida um escândalo popularesco. Não o vi chegar, mas ouvi em alto e bom som quando ele partiu, porque saiu quebrando as vidraças que tão elegantemente afastara para poder entrar.

Meu amor hoje leva nas costas as únicas coisas que eu achava que não poderiam ser tiradas de mim. Lá vai no saco preto de lona, jogado de qualquer jeito em seu ombro minha segurança. Minha auto-estima também está lá dentro, amarfanhada lá no fundo, porque ela já não era grande coisa para começo de conversa. Também leva minha fé e a minha esperança, não no futuro, pois este dista, mas na humanidade, e na pouca humanidade que existe ainda em mim. Esta última também foi amassada de qualquer jeito entre outros tesouros meus, como a minha vontade de voar, a minha coragem para atravessar a noite de lado a lado. Preciosidades como estas não tardam a surgir, menores, meio marcadas, porém surgem. Mesmo contando com seu retorno, não gostaria de tê-las perdido, neste momento tão crítico da vida.

Sem coragem, sem fé e sem humanidade dentro de mim, perdi também meu sorriso. Não, este não foi o amor que levou, este eu perdi sozinho, porque segurá-lo na frente do rosto já não fazia mais sentido. Também recolhi minha empolgação e minha boa vontade. Estas eu confesso que escolhi guardar para melhor ocasião. Porque eu deixaria algo tão bom exposto, se pode também ser levado por um amor meliante? Não, essas eu preservo escondido na gaveta mais secreta do armário mais escuro do meu cérebro. Ficam lá guardadas, definhando, porque não são tocados pela luz do sol.

E agora fico assim, desnudado de meus valores, remoendo o arrependimento de ter sido vítima de seus dedos leves. Mas quem lutaria contra a investida cheia de charme e elegância? Amor é um mestre dos disfarces. Amor é um ladrão de casaca. Amor é um Arsene Lupin.

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“Liga o shuffle e vamos ser amantes?”, Juliano Barreto

Desde as três da manhã a mesma música saia das caixas de som e fazia tremer as paredes. Roberto caiu bêbado ali do lado sem se incomodar com o barulho. Em algum momento, um instinto o mandou abaixar e ficar mais perto da vibração dos graves e agudos de A Whiter Shade Of Pale. Ao acordar, tudo mudara. O som era irritante, o telefone apitando e copos, bitucas e restos de comida espalhados pelo apartamento. Pena não poder viver assim para sempre, pensou.

Aquela letargia fazia bem. Um prato quebrado ficou ali, aos pedaços, por algumas semanas. Não era preciso recolher nada. Ninguém iria reclamar. Se alguém fosse cortar o pé ali, seria o dono do castelo abandonado. E ninguém mais. Aos amigos, surgia sempre a preocupação do isolamento de Roberto. Para o próprio, só lhe incomodava a falta de um meio termo. Viver sob a corrente do casamento ou no harmonioso caos de uma solidão projetada.

Daniela, sua ex-mulher por duas vezes, nem queria saber dessas histórias que chegavam a ela como se fossem boletins médicos de uma celebridade moribunda. Roberto deu vexame no aniversário do chefe. Roberto bateu o carro em duas viaturas ao mesmo tempo. Roberto levantou-se da mesa do bar e saiu para comprar cigarro. Só deu sinal de vida uma semana depois, quando foi visto por acaso no Rio de Janeiro.

O problema é que ela sentia muita falta das noites em que Roberto chegava antes em casa e preparava-lhe alguma surpresinha boba. Fazia falta abrir a gaveta do banheiro e encontrar aquele chocolate com avelã que ela tanto adorava. Era gostoso ganhar flores como nenhuma de suas amigas ganhava. Num dia de gripe, faltava aquele cara desajeitado queimando as mãos enquanto tentava preparar a bolsa de água quente.

No meio das suas noitadas, que geralmente começavam após um almoço tardio e farto no final da tarde, Roberto também sentia falta de Daniela. Não era simples falta de alguém melhor. Poderia falar com ela a qualquer momento. Se caprichasse bem na desculpa e nas promessas de regeneração, tinha certeza de que uma reconciliação era possível. E também previsível. Reatariam, cairiam na rotina, novas brigas surgiriam e uma separação seria, de novo, um grande e inevitável alívio.

Foi num dia, na cama com uma daquelas de quem nunca se lembraria depois de uma semana, que Roberto descobriu o atalho para sua felicidade e também para a felicidade de sua ex-mulher. Para que comprar um velho disco de vinil e ouvir todas as músicas do lado A para depois ouvir a metade das músicas do lado B só para chegar até a única faixa que presta? Já existe CD, MP3 e o caralho a quatro. Não é preciso fazer as coisas como nos tempos do Procol Harum. Prova disso era a magnífica A Whiter Shade Of Pale, que só ficava magnífica de fato após a oitava repetição e uma garrafa de vodca.

Mais sóbrio do que estava acostumado, Roberto marcou um encontro com Daniela. Não negou seus pecados nem escondeu o prazer e o riso que o completaram durante seu papel de protagonista de histórias de bebedeira e confusão. De tão leve, trocou a raiva da ex-mulher por risos de recém-conhecidos. Tudo para falar que não queria reatar mas sim ser amante de sua própria ex-mulher.

E assim começou uma relação sem ciúmes, sem obrigações e totalmente aleatória. Se – apenas se— por acaso se encontrassem vez por outra, trocavam risadas e beijos. Depois um acordava na casa do outro surpreso com a cor de um novo lençol.

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E assim nasceu o Divertics

            Jorge Fernando foi até o almoxarifado:

– Márcio, confere pra mim o estoque na geladeira.

– Um ator e uma atriz de novelinha, seis comediantes.

– Consegue me arranjar uma gostosa, bem assim, e um Porta dos Fundos? Só pra variar o time.

– Dá, dá sim. Só que o Fabio Porchat tá careiro, ficou ruim depois do Medida Certa.

– Sem problemas. Vai ser um humorístico, então. Que horário tá aberto?

– Domingo à tarde, no lugar da Regina Casé.

– Reserva pra mim.

            Márcio reservou os horários, os atores e deu uma olhada na prateleira dos roteiristas.

– E de roteiro? Precisa de alguém?

– Quem é melhor que o Zorra, mas que também não é bom?

– Tem uma turminha que não deu certo no stand up, dá pra misturar com os que não dão uma dentro faz tempo. Serve?

– Liga pra eles, por favor?

– Beleza. A gente só tá ruim de direção de arte.

– Tudo bem, pode ser qualquer coisa.

– Qualquer coisa?

– Qualquer coisa.

            E assim nasceu o Divertics.

No teto

– Sabe esse casal que acabou de sair?

– Que foi?

– Não sabia que dava pra fazer desse jeito.

– Fazer o que, criatura?

– Tipo, transar assim.

– Assim como?

– Sujaram o quarto todo. Todinho, todinho.

– Sujaram do que?

– Porra. É porra demais, nunca vi tanta.

– Ai, caralho.

– Isso que eu não falei do banheiro.

– Que que tem o banheiro?

– Parece que rebocaram a parede. Até no teto.

– Do banheiro?

– Do banheiro, o do quarto tem marca de bunda.

– Péra, marca de bunda aonde?

– No teto. Do quarto. Assim, ó, bunda.

– Marca de bunda?

– É, porra! De bunda!

– Como que um menino daquele tamanho conseguiu fazer isso?

– E eu vou lá saber?

– Caralho…

– Não tomaram banho e não ligaram a hidromassagem.

– Uai, mas eles estavam limpinhos quando passaram pra pagar. Será que tinha mais gente?

– Só se for um batalhão. É porra pra dedéu.

– E a bunda? É uma só ou parece que tem mais?

– Não sei, acho que era um monte.

– Não sabia que dava pra fazer desse jeito.

– Nem eu.

Expo demais para Music de menos

fender

Minha relação com a ExpoMusic deve ter começado há uns dez anos, quando comecei a tocar guitarra. Talvez mais, talvez menos. Mas o fato é que eu sempre gostei de saber mais sobre os equipamentos e suas possibilidades, as novidades do mercado e tudo mais. Nesse ano decidi ir à feira, e diferente das outras edições, meu objetivo estava claro: encontrar a minha próxima guitarra.

Depois de me perder na ZN por alguns minutos, chegamos ao Expo Center Norte, deixamos o carro no estacionamento pela bagatela de Trinta Reais Em Barras de Ouro Que Valem Mais Que Dinheiro®  e partimos pra feira. Foi muito fácil de entrar, tinha uma fila exclusiva para quem tinha comprado o ingresso pelo aplicativo, que era só passar o CPF que eles liberavam a entrada.

Na entrada, ao dar de cara com o mega-estande da Pro Shows e da Fire Custom Shop, a impressão foi boa, fiquei animado. Achei que fosse me divertir muito, o que não aconteceu de fato, e é aqui que explico o título da postagem: em boa parte dos estandes, os representantes e promotores não estavam minimamente preocupados com os visitantes, e sim com os grandes compradores, lojistas e tudo mais. Não digo que eles estavam errados, e realmente não estavam, uma vez que foram destacados para trabalhar na feira e defender os interesses do fabricante que não faz vendas para o consumidor final. Fiquei apenas desapontado, não há como dizer que é culpa de alguém.

Eu gostaria de ter mais contato com alguns instrumentos da Benson e da Shelter, mas eles simplesmente pregaram as guitarras no suporte com lacres e não ofereceram a possibilidade de testá-las.

Por outro lado, as surpresas foram a Dolphin (no estante da Izzo) e Michael, ambas anunciando a reestilização da marca, ótimos instrumentos e aposto que o custo x benefício dessas guitarras é muito bom. Toquei num Dolphin Jazz Bass com uma proposta mais vintage, com ferradura e ashtray, e me pareceu um bom instrumento. Toquei num violão eletroacústico bem confortável, sonzão de violão mesmo, e numa guitarra estilo PRS também com boa pegada e um braço macio. Ficou devendo no som, mas isso já era esperado. Mexi numa pedaleirazinha Zoom assinatura do Kiko Loureiro que pareceu ser uma boa opção de multiefeitos pra quem está começando sem grana, mas quer fazer um barulho em casa, nada fora do foco da marca.

Nas surpresas negativas, eu esperava mais do Vox Tonelab ST, que não passa de uma Zoom 505 II com sotaque. Também não gostei das guitarras e do baixo, não faço ideia dos modelos (tampouco me importam), dos AmpPhone (headphone com sistema de amplificador embutido) que tem o som muito ruim e dos amPlug, que têm alguns anos mas não havia testado ainda. Pra uma marca com um posicionamento premium com a Vox (principalmente nos preços), esperava muito mais de todos esses equipamentos, que não passam de invenções chininhas com um selo forte. A Yamaha também pintou com um cabeçote estiloso, parecia um dock de iPod, mas o som é digno de risadas.

Na área dos instrumentos, a Seizi, marca nova do senhor Tagima, veio pra ser só mais instrumento de médio-custo e baixa qualidade. A Telecaster não tinha a única coisa que interessa numa telecaster, o som “twang” característico. Nesse caso, assumo que não deveria ter esperado muito desse pilantra.

Em geral, aproveitei o passeio, foi algo que me tirou da rotina por algumas horas, embora não tenha perspectivas de voltar no ano que vem. E sigo a busca pela nova guitarra.

Um pouco sobre bastante

Selecionei alguns links interessantes que peguei ao longo dessa semana:

Veja fotos inéditas do Festival de Woodstock – Hypeness
Essas imagens cumprem muito do seu papel: passam a energia do festival para quem está apreciando. Milhares de pessoas numa fazenda no interior dos Estados Unidos transcendendo. Seja a menina soltando bolhas de sabão ou rapaz que foi ao alto da “árvore” ler um livro, são coisas que devem ter acontecido apenas lá e pelas vibrações de todos que participaram desse evento. Lógico levantaram a questão do lixo no chão, mas não é nada diferente das raves que acontecem aos montes no Brasil.

Maior parede viva de Londres vai ajudar a combater enchentes – Hypeness
Sou fã dos “jardins 90º” e não vejo a hora de instalarem um em São Paulo. Os militantes do movimento dizem que é uma arquitetura que não tem grandes custos de manutenção e não é difícil irrigar, mas não faço ideia do quanto seria gasto para construir uma versão tupiniquim da parede viva. Além de ajudar a captar água da chuva e retirar gás carbônico para devolver oxigênio, a fachada fica muito bonita.

Violão deixa homens mais atraentes – UOL
É uma manchete notadamente risível. O estudo apenas comparou o percentual de sucesso na abordagem de homens com malas de academia, cases de violão ou nada nas mãos, sendo que os rapazes que carregavam o instrumento foram mais felizes na conversa. De fato o dado é curioso, mas não se pode simplificar como a manchete. Não é porque estou com um violão que automaticamente encantarei as garotas ao meu redor.

Conheça homens e mulheres que optaram por uma vida mais simples – Política na Rede
Não está entre os melhores textos que já li, mas o assunto pode gerar uma boa discussão. Logo no começo percebe-se um grande esforço para nos convencer que consumir é errado e todos os personagens da matéria estão dando o sangue para viver sem gastar. Acredito que ninguém precisa se esforçar para não ter luxo, ninguém precisa se esforçar para viver com simplicidade. Confesso que já pensei em adotar um estilo de vida despojado, mas no momento gosto da forma como estou vivendo. Considero-me um homem simples, mas não menos esforçado para atingir o conforto financeiro, até porque ainda não vivo de luz. Ou seja, não vou fico chateado se não consigo adquirir um produto imediatamente, muito menos penso na obsolescência dos meus eletrônicos, mas não deixo de trabalhar para continuar comprando o que quero.

14 imagens que vão mudar a maneira como você come – Tudo Interessante
Considero as fotos 1, 2, 8, 12 e 13 as melhores. Ainda estou um pouco desconfiado sobre a imagem número 1, mas bastante curioso para testá-la assim que puder. A número 2 também é muito boa, mas não são muitas as vezes que preciso cortar algo miúdo como as uvas, bem como não é sempre (quase nunca) que preciso rechear um taco, como a oitava foto. A imagem número 12 é genialmente simples ou simplesmente genial. Não há o que dizer sobre ela!
Isso me lembrou dum repin que publiquei nos meus primeiros dias no Pinterest.

OAB vai pedir a cassação de Marco Feliciano e Jair Bolsonaro – Brasília em Pauta
Já não era sem tempo. Se existe uma dupla que prega o ódio é essa aí. Pior ainda é o Feliciano ser eleito como presidente da Comissão de Direitos Humanos da câmara. Infelizmente a causa pela qual eles serão cassados não traz exatamente tudo de ruim que eles fizeram, mas tirá-los do poder é o que importa no momento.

Ação da Ford divulga busca por novos craques em Portugal – Brainstorm9
Não entendi como a seleção dos jogadores irá acontecer, mas o vídeo é ótimo. Acertaram em cheio nessa fórmula, não tem como errar na preparação de um filme que faça a alegria da criançada.

Unhappy customers using promoted posts to hit brands where it hurts adds nightmarish new dimension to social customer service – Social Media Influence
Uma palavra define: FODEU. Se essa moda pegar no Brasil, todos os community managers que trabalham com marcas que pisam na bola estão automaticamente muito ferrados. Se antes pediam “compartilhem, por favor”, agora basta passar o cartão de crédito e promover a postagem no Facebook. Espero que o brasileiro seja bastante pão-duro e não patrocine nenhuma publicação.

O enquadro da lasanha

Meus pais têm o costume de me ligar perto do horário que eu deveria chegar da faculdade, lá pelas 23h e alguns trocados. Vai que aconteceu alguma coisa comigo? É bom ficar de olho no filho que ainda está morando em casa. Geralmente descubro que tenho que preparar minha janta quando, já vestido com as calças de moletom, abro a geladeira e me deparo com o solitário pote de manteiga sem sal. Então aproveito esses telefonemas para perguntar sobre o jantar e passo no mercado 24h que fica no caminho caso a resposta seja negativa.

Ontem foi um desses dias. Comprei uma lata de refrigerante, uma lasanha congelada e um refratário redondo pequeno (depois conto a história dele). Moro num bairro residencial, daqueles que as ruas esvaziam depois das 21h, timidamente arborizado. O trajeto é curto. Ao virar a esquina e chegar na rua de casa, havia dois policiais e um senhor conversando.

– Ó lá o cara -, um deles disse. Acho que era eu. Encostaram a viatura e anunciaram a abordagem:

– Encosta na parede e segura a mochila com as duas mãos na frente do corpo.

O pedido foi prontamente atendido. Um deles abriu o zíper e vasculhou o interior da bolsa:

– Que é isso?

– Lasanha.

– E isso?

– Óculos.

Folheou meu bloco de notas:

– Caderno -, respondi.

– Tá vindo de onde?

– Da faculdade.

– Mora aonde?

– Naquele prédio branco.

Devolveu o caderno e fechou a mochila.

– Beleza. Vai lá.

Agradeci, coloquei a mochila em um dos ombros e cruzei o restante de quarteirão que faltava para chegar à portaria.

Joe Bonamassa no HSBC Brasil, 8 de agosto

“Chamam-no de o futuro do Blues, mas estão errados – Joe Bonamassa é o presente; tão inovador que beira a definição de contemporâneo. Não há ninguém na cena atual que toque com tanta paixão, talento e refinamento”
– Classic Rock Magazine

Enquanto subia uma campanha teaser de um cliente, sem mais nem menos, recebi uma ligação da Guitar Player avisando que eu tinha ganhado os ingressos para o show do Joe Bonamassa. Dia seguinte, dia do show, as horas não passavam, saí tarde da agência com muito medo, mas as boas energias colaboraram para que tudo desse certo. Cheguei ao HSBC Brasil com tempo de sobra para pegar os ingressos de cortesia da revista (Sorte: você está na plateia VIP) e deu até para tomar uma cerveja (Revés: quente. Pague 7 reais)

Bem, o show. Foi pontualmente às 21h30 que Joe Bonamassa chegou ao palco com um violão. Tocou “Palm Trees, Helicopters and Gasoline” e já na segunda música teve a companhia do baterista Tal Bergman nas congas e do tecladista Derek Sherinian no piano de armário. Foram mais três músicas (e trocas de violão, com e sem capotraste) antes de encerrar o set acústico com “Woke Up Dreaming”.

Para começar com a guitarra elétrica, o roadie trouxe uma Gibson LP Standard com ponte Bigsby. A agilidade na troca de instrumentos me impressionou. A primeira música com a banda completa (Bergman na bateria, Sherinian nas teclas e Carmine Rojas no baixo – um Fodera) foi logo “Dust Bowl”, que não é exatamente uma paulada. Algumas músicas depois, trocou de guitarra para mais uma Gibson LP que não consegui reconhecer. Sem pickguard e com uma marcação estranha na escala, ela trazia um timbre muito mais agressivo que a anterior.

Pra mim, os destaques foram “Dislocated Boy”, com uma Music Man double neck (afinada em D e E), “Driving Towards the Daylight”, que considero uma das melhores músicas desse gênio, “Slow Train” que é incrível por si só e “Sloe Gin”, que não conhecia e a descobri no show. Por mim, faltou “Sick in Love”.

Não tive como não notar a sinergia da banda. Estavam sempre na cabeça dos tempos e dos chicotes para entrar e sair das músicas. Banda esta que também é incrível! São ótimos músicos e seria uma enorme injustiça destacar o trabalho de apenas um deles. Já o sr. Bonamassa dispensa maiores comentários, tanto sobre sua musicalidade e quanto vocalidade. Escrever que é um ótimo cantor e virtuoso guitarrista pode parecer pouco, mas seria redundância adicionar elogios à conta.

Ao final, o HSBC Brasil pareceu ser uma casa de shows excelente, Joe Bonamassa apenas confirmou tudo o que achava de sua música, eu parecia estar com sorte nos últimos dias e fiquei feliz demais com todos esses acontecimentos. Este definitivamente figura entre os melhores shows que assisti.

E seis cordas depois…

Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.

– Artur da Távola

Se existe uma coisa que não deixa o mundo parar de girar é a música. Passo o dia todo com os fones de ouvido escutando (apreciando) de tudo no Grooveshark e não consigo pensar numa forma melhor que essa para trabalhar. São quase seis horas por dia conectado com um mundo que criei para mim, dentro da minha própria cabeça, e lá tem tudo o que aprendi, vi, ouvi, toquei e li sobre música ao longo da minha vida.

Minha ligação com a música se dá principalmente pelo universo da guitarra. Boa parte de tudo que sei sobre música e instrumentos musicais deriva daí. Dezenas de Guitar Players compradas (fiz uma assinatura anual agora em julho, esse mês chega a primeira), muitas horas navegando por fóruns, blogs e sites sobre guitarra, além de muitas horas tocando e fuçando, é claro. Como sempre, esse sentimento tem que começar por algum lugar, então decidi “buscar as origens” e cheguei numa pequena lista de guitarristas e bandas que foram – e ainda são – muitos importantes pra minha formação enquanto péssimo músico e excelente escutador de música. Resumo: foram esses caras que me fizeram gostar de guitarra.

Hank Marvin
Hank é o líder da banda inglesa The Shadows, e segundo a Wikipédia, é o conjunto inglês mais influente antes da era Beatles. Não duvido que tenha influenciado mais de uma geração de instrumentistas. A música do vídeo, “Apache”, é uma das minhas favoritas. É simples e bela ao mesmo tempo, enquanto o timbre da strat fiesta red do Sr. Marvin não engana a ninguém.

Joe Satriani
Satriani é bem mais recente e começou a fazer sucesso no meio dos anos 80. Em geral, suas músicas são instrumentais e a guitarra com certeza é o centro das atenções. Gosto da forma que trabalha as melodias sem abusar das firulas e fritadas, resultando em temas bastante agradáveis e não muito enjoativos.

Steve Vai
O curioso é que Steve Vai foi aluno do Joe Satriani (assim como Alex Skolnick e Kirk Hammett) e ainda assim os dois trazem formas completamente diferentes de encarar o instrumento. Vai é um showman, daqueles de ficar fazendo caras e bocas enquanto gasta velocidade sem medo de ser feliz, e ainda usa alguns ventiladores pro cabelo voar nos shows.

Roy Orbison
Não é exatamente um guitarrista de referência, mas “Pretty Woman” é uma canção incrível e tem um dos riffs mais conhecidos de todos os tempos. São poucos os que conseguem emplacar a trilha sonora de uma produção de Hollywood que combine tanto com o filme e com a Julia Roberts.

Mark Knopfler
Guitarrista e vocalista do Dire Straits, um verdadeiro virtuoso no que se refere à arte de tocar e compor. Mesmo que “Brothers in Arms” seja um disco irretocável, a obra-prima fica com “Sultans of Swing”, que também é uma das músicas que considero entre as melhores de todos os tempos.

Podem não ser os melhores de todos os tempos, ou até mesmo de suas épocas, mas carrego comigo um pouco de cada uma dessas criações. Tomei cuidado na escolha dos vídeos e ainda fiz questão de colocar performances ao vivo pra ser mais próximo da essência de cada um deles.

No final, talvez não seja nem a música que faz a Terra continuar girando. Mais parece que somos nós que fazemos tudo isso acontecer. Somos nós que compomos ou que fazemos de muitos idiotas as pessoas mais famosas do momento. É a nossa paixão pelas sensações inexplicáveis que uma faixa de um CD antigo, um perfume que ficou no ar por um segundo ou uma palavra que nos faz lembrar aquilo podem nos causar. Sensações boas, sensações ruins, vontade de rir, chorar ou simplesmente tocar guitarra. O que seríamos nós sem a música?