Não Adianta

São Paulo é a cidade que não adianta.

Não adianta sair de casa meia hora mais cedo.
Não adianta inventar um novo caminho a cada semana.
Não adianta usar o Waze.
Não adianta ir de carro, de táxi, de Uber.
Não adianta deixar para tomar café da manhã na empresa.
Não adianta a vida.

São Paulo só atrasa.

“Dois e Dois são Quatro”, Ferreira Gullar

Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

1930 – 2016

Força, Chape

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Pense num clube que, há menos de dez anos, amargava a série D do Campeonato Brasileiro. Pense numa torcida que nunca vibrou um título em âmbito nacional. Série D, série C ou série B. Nada. Pense numa cidade mais próxima da fronteira do que de sua própria capital.

Um time tido como pequeno que nunca teve vergonha. E mais. Muito mais. Se agigantou diante de todo adversário e qualquer situação adversa. Na provinciana Chapecó, seus pouco mais de 200 mil habitantes tornaram-se apenas um sentimento pintado de verde e de graça para ostentar o amor por uma equipe que, no seu quintal, conquistou a América do Sul.

Mas, na manhã desse 29 de novembro, a preocupação com boleto e o amor alviverde do último domingo transformaram-se numa sensação em tons cinzentos. Um sentimento semelhante ao de segurar areia fina e deixá-la vazar por entre os dedos. Impotência, consternação, sentir-se do mesmo tamanho que o próprio grão de areia que nos fugiu. Uma situação que não faz sentido, subverte a lógica da vida e a alegria proporcionada por um esporte que, me perdoem os castos ou pseudocultos pela discordância, é muito mais que um esporte. Um dia insuportavelmente triste para qualquer apaixonado por futebol. Para qualquer pessoa que, mesmo sem entender a grandeza da Chapecoense de 2016, conhece o pesar causado pela perda.

Pisar num campo com arrojo, tanta nobreza e tamanha grandeza ao chutar uma bola com a determinação de um clube nunca campeão. Isso jamais será tirado destes que são eternizados sob o escudo da Associação Chapecoense de Futebol.

“Apetites”, Jader Pires

Depois de dias trocando mensagens, decidiram se encontrar num bar que conheciam em comum. Tudo normal, aplicativo de encontros, bateu os amores, a conversa não foi boba, riram um pouco e na tarde seguinte deu vontade de mais.

Daí, sentados, ele aliviou as pernas que na primeira meia hora estavam travadas nos pés da cadeira. Pudera, o que não faltava era anseio em que resultava em conversas caladas, desconforto. “A gente bota fé demais”, ele disse rindo. “Ou trabalha de menos”, ela refutou como quem enfrenta só pra ver onde vai dar, cruza os braços mas faz bico que não segura o riso. Nessa hora ele tranquilizou as panturrilhas e se aproximou, com cotovelos em cima da mesa e tudo.

Nos falantes tocava o disco novo do Frank Ocean, bem na troca da guitarra solitária de Ivy pro piano de Pink + White. Eles tinham trocado esses sons, foi o que fez verem similaridade o suficiente pra sair do Tinder e entrarem logo no Whatsapp. Tava rolando e eles sabiam. E é ótimo quando rola e a gente sabe. Esquece o jogo, a postura, a batata da perna se liberta e desliza procurando a outra debaixo da mesa.

“Nossa, já tá uma delícia assim e eu nem sei nada sobre você ainda”, ele soltou.

“Que enigmática eu sou, não? Uma delicia misteriosa. É como se você me colocasse na boca, como se dançasse com a língua me descobrindo tentando adivinhar os ingredientes. Se leva canela na minha receita, se leva nozes. Salivando e me curtindo sem saber direito como eu posso ser tão gostosa assim”. Ela fala tudo isso arrebitando o narizinho. Aprontando. Resta a ele a mão na testa, a incredulidade de quem escuta tudo esfregando a língua contra o céu da boca.

Esfomeados, trocaram sabores a noite toda.

(Na Meio-Fio #47)

Meus sentimentos

Gosto de pensar que na terra temos só uma missão e ela percorre toda a nossa vida. Nós passamos os anos com distrações, diversões e alegrias, mas a todo momento nossa missão, declaração ou profissão de fé está do nosso lado mesmo que a gente não perceba.

Nós vivemos para aprender a amar.

Deus chama os justos para que permaneçam em paz, os transforma em anjos e conferem a tarefa de continuarem olhando pelos que ficaram para manter acesa sua chama, trazendo luz e sabedoria, acima de tudo. Acontece que, seu pai, o bom homem que foi, completou essa jornada. Mas continua vivo em você, na sua família, nas pessoas que por ele passaram em todos os bons feitos que permanecerão.

Continuo desejando serenidade, resiliência e muita, muita energia a todos.

Vamos ver quem tem político de estimação

Aécio Neves, Celso Russomano, Paulinho da Força, José Sarney, Sergio Cabral, Eduardo Cunha, José Serra, Eduardo Paes, Gabriel Chalita, Romero Jucá, ACM Neto, Aluizio Mercadante, Geraldo Alckmin, Jaques Wagner, Anthony Garotinho, Marconi Perillo, Demóstenes Torres, Roseana Sarney, Beto Richa, Heráclito Fortes, Aldo Rebello, Tarso Genro… A lista de Benedicto Barbosa, executivo da Odebrecht, tem muito peixe grande e pode ser encontrada no blog do Fernando Rodrigues (o cara do Swissleaks), do UOL. (Em tempo: nada disso dá a entender é dinheiro limpo ou caixa 2, mas precisa ser investigada.)

Qual a dúvida? Para ser otimista, o impeachment da Dilma e a ascensão do Temer servirão apenas para extinguir a Lava Jato e manter tudo, tudo do jeito que sempre foi. Sérgio Moro, mesmo com intenções políticas claras, está mexendo com o alto clero de todos os lados – ou será que, mais uma vez, a oposição não será atingida? Até porque, essa é a sétima vez em que Aécio é citado na Lava Jato e todos os processos anteriores foram arquivados.

Não soa estranho que, dos 65 deputados que compõem a Comissão do Impeachment, 40 tiveram suas campanhas financiadas pelas empresas investigadas na Lava Jato ou pelas suas subsidiárias? Bônus: quatro desses 65 são investigados na operação. Bônus 2: Eduardo Bolsonaro e Marco Feliciano. Novamente, fonte do UOL.

Não soa estranho que, mesmo partidos que faziam da parte da base aliada estejam também tentando abrir mão de seu apoio? Um caso recente e emblemático é o PRB, que tinha o Ministério do Esporte (de George Hilton) e abandonaria a presidenta, mas depois não abandonaria mais, e o Ministro pretendia mudar de legenda para manter o cargo, mas depois não ficou mais com o cargo (entregue ao PC do B). Grande bagunça. Quem joga de verdade está lá em cima, enquanto os movimentos aqui embaixo são pequenas peças do xadrez político que está acontecendo no Brasil. Sim, massa de manobra.

“Contra a corrupção” não é posição política. “Contra a corrupção, mas só a do PT”, menos ainda. Não vejo nenhum defensor da democracia defender a reforma política, reforma tributária, o voto distrital, o fim do financiamento privado de campanha, a taxação das grandes fortunas ou o fim da imunidade tributária para templos religiosos (essa que, há pouco, foi votada e ampliada por unanimidade no senado). A discussão seria mais proveitosa se, petralhas e coxinhas, soubessem se posicionar e argumentar de maneira mais eficiente. Você acha que paga muito imposto e não tem retorno? Tem gente que não paga imposto algum. Você acha que os políticos roubam muito? Procure seus candidatos, confira sua declaração de renda e os doadores da campanha. Não lembra em quem você votou? Não tomou nem o cuidado de anotar? Fica o aprendizado para o dia 2 de outubro, você ganhou mais uma chance.

Tenha calma

Nada me deixa mais perturbado do que pedir pra eu ter calma.

Um cara acabou de bater no meu carro. A atendente disse que depois da vistoria, vão confirmar se o conserto do meu veículo será aprovado. Esse processo leva pouco mais de uma semana.
“Senhor, por favor, tenha calma”.

A atendente disse que a vistoria tem que ser agendada. As duas oficinas mais próximas não são nada próximas e só funcionam em horário comercial. Vou perder um horário de almoço, talvez mais, me deslocando até lá com um carro batido.
“Senhor, por favor, tenha calma”.

A atendente disse que, no período de conserto, se aprovado, a seguradora não vai me fornecer carro reserva. Porque sou terceiro. Táxi, reembolso, nada.
“Senhor, por favor, tenha calma”.

Nada me deixa mais perturbado do que pedir pra eu ter calma.

Meia

Queria dividir com vocês que encontrei uma meia do meu pai na manga da minha jaqueta. Deve ter entrado lá durante a centrifugação na lavadora de roupas, acredito. Não percebi quando vesti e encontrei agora, que tirei a blusa para ir ao banheiro (tenho o hábito de tirar a blusa para ir ao banheiro). Logo pensei nas minhas meias, deve haver uma quantidade significativa delas em meio às roupas dos meus familiares.

De vez em quando acontecem coisas engraçadas nessa vida.

“O Grilo”, Matheus Nachtergaele

Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.

Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: Por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Shakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.

O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.

Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cercas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro. Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.

Teu,

Matheus Nachtergaele

O catador de papelão

Na rua da estação de trem, chega o catador de papelão. Ébrio, já não consigo dizer se puxa sua pequena carroça ou é o carrinho que o empurra. De dentro do bolso saca uma nota de poucos reais e pede um trago ao vendedor de espetinhos que, benevolente, recusa o negócio. Há pouco negado e tão logo concretizado diante da insistência do bêbado frente ao espírito microempreendedor de seu interlocutor, duas doses são servidas e em pouco são sorvidas, o vendedor pensa se fez o certo e o bêbado agora não pensa em nada.