90 minutos

Quarta, domingo, 90 minutos. Calor, cerveja, lanche, fila, revista, o sentimento único de sentir-se em casa ao atravessar galerias e deparar-se com o relvado. 90 minutos. As cores são de infância, a bandeira é o amuleto, os companheiros são os de sempre, o setor é o mais barato, o estádio é o templo, o esporte é a religião. 90 minutos. Beijo no escudo, olhos fechados, mãos unidas entregues ao firmamento, mandinga. 90 minutos. Impecavelmente uniformizados e acompanhados de crianças, muitas, eles partem do fosso numa caminhada lenta e preguiçosa como funcionários da fábrica voltam do almoço. 90 minutos. Com dois pequenos nos braços e mais outra dezena ao redor, aquele é ovacionado ao cravar as travas no gramado. 90 minutos. Centro-avante, centro das atenções, amado por uns, odiado pelos outros, herói para uns, vilão para todos os outros, é visto saindo de boate acompanhado por duas modelos na antevéspera do jogo. 90 minutos. Penteado assoberbado, calçado multicolorido, salário multimilionário, tem que jogar por amor. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Impecavelmente perfilados, repousam a mão direita sobre o emblema com a seriedade do praça que vai ao front. 90 minutos. Um tiro até seu posicionamento como manda o plano, corrida no lugar, pulo, confere a paisagem. 90 minutos. Milhares de gargantas tentam se fazer ouvir. 90 minutos. Tem que ganhar. 90 minutos. Confere o relógio, sinaliza os capitães, assopra a adrenalina que inflama o espetáculo. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Toque inicial, pancada de meio campo para trás, toque, chute para frente, corrida pela esquerda, desarme do zagueiro. 90 minutos. Na entrevista coletiva, ao vivo no esportivo do meio-dia e pouco, o defensor desafiou o trio ofensivo adversário e não descartou pará-los com força bruta. 90 minutos. Dois grisalhos gritam nomes, instruções, direções, mais nomes, palavrões. 90 minutos. Cânticos incessantes. 90 minutos. Letras acessíveis e melodias arrebatadoras fazem tremer o gigante de concreto. 90 minutos. Apito estridente, cânticos cessados. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. O batedor recua cinco passos da bola posicionada a 11 metros do goleiro imóvel no centro das balizas, que olha fixamente para seu adversário que olha fixamente para lugar nenhum. 90 minutos. Ele bate bem, é dito na fileira de trás. 90 minutos. Um desejo mora no fundo da rede, um desejo resvala nas luvas e corre para a linha de fundo. 90 minutos. Amendoim dois reais. 90 minutos. Muito acontece numa fração de instante: tem um que apita, tem um que corre, tem um que olha, ninguém respira e o amendoim dois reais. 90 minutos. Desfere uma pancada firme como o cento de repetições daquela semana. 90 minutos. A etiqueta da arquibancada diz que não pode comemorar antes. 90 minutos. Foi pouco. 90 minutos. Para fora. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Tem um que volta ao centro de campo, tem um que olha para cima, tem um que comemora ajoelhado, todos xingam e respiram fundo para xingar ainda mais. 90 minutos. Nas ruas adjacentes, o imoral efeito das bombas e o amargo sabor das balas repelem a multidão. 90 minutos. O embate paralelo entre homens de capacetes e escudos contra homens de braços desnudos. 90 minutos. Filhos da puta. 90 minutos. No meio do corre-corre, o lado mais fraco usa todas as armas ao alcance, o lado mais forte avança impiedosamente com ódio no olhar, uma bomba é lançada, gol. 90 minutos. O grito antes preso na garganta alivia o peso da vida sofrida do brasileiro médio, que pega duas conduções, esquenta marmita em banho-maria e dedica a noite depois do culto para soluçar e odiar com força a semana que vem pela frente. 90 minutos. Foco, metade do anel observa com discrição e desgosto a multidão fervilhante em seu oposto. 90 minutos. Dois amendoim. 90 minutos. Gladiadores deixam o centro da arena evitando os microfones que fabricam manchetes de embrulhar peixe. 90 minutos. Mãe, eu estou bem, você tá assistindo ao jogo? 90 minutos. Apito bala bola carrinho cavalo delegacia escanteio falta. 90 minutos. É só fazer mais um. 90 minutos. Um passe rasteiro desmoraliza a zaga desavisada, encontra conforto nos pés do matador que dispara pelo meio. 90 minutos. É pra fazer. 90 minutos. Fominha, nunca vai pra seleção desse jeito, é moleque. 90 minutos. (Já sabe, né?). 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Um tiro de córner sobrevoa a pequena área em direção ao segundo poste, prontamente interceptado pelo marcador. 90 minutos. Esse time faz muita falta. 90 minutos. Não faz mais falta que o avô, que o ensinou o amor pelo clube e o levou em tantas partidas até ser levado em outras tantas. 90 minutos. O contragolpe alcança a intermediária com a destreza em que a bandeira quadriculada é erguida. 90 minutos. Não vi vai ter que esperar o Globo Esporte. 90 minutos. É claro que sobrou para a mãe dele também. 90 minutos. Saída rápida, a investida pelo flanco esquerdo termina de maneira trágica, homem ao chão. 90 minutos. Chama o médico, chama a maca, ergue o braço para assinalar à torcida, ouvem-se aplausos. 90 minutos. A multidão não se cala por um bocejo para dar fôlego aos últimos instantes da batalha. 90 minutos. Confere o relógio, três silvos longos apontam o centro de campo e, entregues à exaustão, removem o manto para se dirigirem ao subterrâneo. 90 minutos. Entregues à êxtase, camisas que secam lágrimas emocionadas caminham pelo túnel ao encontro de cavalos, cães e coletes táticos sedentos por mais um confronto. 90 minutos. Cerveja gelada, o trem para casa, o sorriso no rosto para abraçar com força a semana que vem pela frente. 90 minutos.

O catador de papelão

Na rua da estação de trem, chega o catador de papelão. Ébrio, já não consigo dizer se puxa sua pequena carroça ou é o carrinho que o empurra. De dentro do bolso saca uma nota de poucos reais e pede um trago ao vendedor de espetinhos que, benevolente, recusa o negócio. Há pouco negado e tão logo concretizado diante da insistência do bêbado frente ao espírito microempreendedor de seu interlocutor, duas doses são servidas e em pouco são sorvidas, o vendedor pensa se fez o certo e o bêbado agora não pensa em nada.

No teto

– Sabe esse casal que acabou de sair?

– Que foi?

– Não sabia que dava pra fazer desse jeito.

– Fazer o que, criatura?

– Tipo, transar assim.

– Assim como?

– Sujaram o quarto todo. Todinho, todinho.

– Sujaram do que?

– Porra. É porra demais, nunca vi tanta.

– Ai, caralho.

– Isso que eu não falei do banheiro.

– Que que tem o banheiro?

– Parece que rebocaram a parede. Até no teto.

– Do banheiro?

– Do banheiro, o do quarto tem marca de bunda.

– Péra, marca de bunda aonde?

– No teto. Do quarto. Assim, ó, bunda.

– Marca de bunda?

– É, porra! De bunda!

– Como que um menino daquele tamanho conseguiu fazer isso?

– E eu vou lá saber?

– Caralho…

– Não tomaram banho e não ligaram a hidromassagem.

– Uai, mas eles estavam limpinhos quando passaram pra pagar. Será que tinha mais gente?

– Só se for um batalhão. É porra pra dedéu.

– E a bunda? É uma só ou parece que tem mais?

– Não sei, acho que era um monte.

– Não sabia que dava pra fazer desse jeito.

– Nem eu.

O enquadro da lasanha

Meus pais têm o costume de me ligar perto do horário que eu deveria chegar da faculdade, lá pelas 23h e alguns trocados. Vai que aconteceu alguma coisa comigo? É bom ficar de olho no filho que ainda está morando em casa. Geralmente descubro que tenho que preparar minha janta quando, já vestido com as calças de moletom, abro a geladeira e me deparo com o solitário pote de manteiga sem sal. Então aproveito esses telefonemas para perguntar sobre o jantar e passo no mercado 24h que fica no caminho caso a resposta seja negativa.

Ontem foi um desses dias. Comprei uma lata de refrigerante, uma lasanha congelada e um refratário redondo pequeno (depois conto a história dele). Moro num bairro residencial, daqueles que as ruas esvaziam depois das 21h, timidamente arborizado. O trajeto é curto. Ao virar a esquina e chegar na rua de casa, havia dois policiais e um senhor conversando.

– Ó lá o cara -, um deles disse. Acho que era eu. Encostaram a viatura e anunciaram a abordagem:

– Encosta na parede e segura a mochila com as duas mãos na frente do corpo.

O pedido foi prontamente atendido. Um deles abriu o zíper e vasculhou o interior da bolsa:

– Que é isso?

– Lasanha.

– E isso?

– Óculos.

Folheou meu bloco de notas:

– Caderno -, respondi.

– Tá vindo de onde?

– Da faculdade.

– Mora aonde?

– Naquele prédio branco.

Devolveu o caderno e fechou a mochila.

– Beleza. Vai lá.

Agradeci, coloquei a mochila em um dos ombros e cruzei o restante de quarteirão que faltava para chegar à portaria.