De ontem em diante

Em teu colo, sou menino.
Em teu leito, sou amante.
Em teu encontro, ofegante,
respiro reconfortado um instante
ao ter em teu seio o alívio da espera.

Porque, mesmo ao esquecer como era antes
ou como você me aconteceu,
sei que, de ontem em diante,
sou teu.

São Paulo, 24 de maio de 2020.

“Provocações”, Luís Fernando Veríssimo

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano… Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

– Violência, não!

Estou ficando velho

Ontem confidenciei a uma amiga: estou ficando velho.

Não é porque meu cabelo está ficando branco (ao mesmo tempo em que estou ficando careca, vai entender). Não por me faltar energia para dar rolês sem fim ou por estar cada vez menos tolerante a barulho e gritaria.

Estou ficando velho porque ouvi Lulu Santos.

E gostei.

Aumentei a aposta, praticamente um all in. Botei Roupa Nova, “Dona”. Eu nunca gostei de Roupa Nova, achava cafona. Play. Deu bom.

Cara, estou ficando ficando velho.

Hoje ouvi Billie Eilish novamente. Billie nasceu em 2001, ainda não completou 18 anos. Bicho, não entendi nada. Acho que é isso que chamam de música jovem hoje em dia.

Não entendi nada.

Volte duas casas

Já passou por uma situação que te fez repensar?

Cerca de um mês atrás recebi um convite muito especial. Rosi foi minha professora de Inglês no ginásio, coisa de 15 anos atrás e, felizmente, nunca perdemos contato. Eis que Rosi me convida para a Feira de Profissões do colégio onde leciona para conversar com os alunos do ensino médio sobre a graduação e o mercado publicitário. O evento foi ótimo, os alunos também são incríveis e foi bastante recompensador saber que ajudei a tirar um pouco desse peso do ano de vestibular dessas crianças (sim, escolher uma carreira aos 17 anos é muito difícil).

Esse menino tinha três sonhos: fazer “filme pra TV”, comprar uma guitarra legal e uma câmera boa.

É aí que começa: vi o Dellzinho de 17 anos parado na minha frente. Magro, cabeça raspada, sem barba, uma expectativa gigantesca sobre a faculdade e tão pouco tempo para fazer tudo acontecer. Esse menino tinha três sonhos: fazer “filme pra TV”, comprar uma guitarra legal e uma câmera boa. Tinha princípios: não trabalhar de roupa social, não trabalhar em escritório e não trabalhar para políticos. Mas, mais importante que isso, me obriguei a pensar se o garoto que eu era na escola estaria satisfeito com o adulto que me tornei. O que eu tive que aprender, mudar e abandonar para chegar onde estou? Eu sou bem-sucedido? O que significava “sucesso” 10 anos atrás?

SPOILER: me tornei redator, comprei a guitarra (que chamo de Manteiga) e comprei a câmera (várias câmeras). Trabalhei de calça-sapato-camisa-gravata, trabalhei em escritório e trabalhei para político (e até pior, mas isso fica para depois).

Nós não somos nossa profissão, nosso cargo ou a empresa em que trabalhamos.

Tomar contato com quem eu era me fez pensar muito. Não que tenha chegado a qualquer conclusão, mas percebi que, de vez em quando, a gente esquece quem a gente é. Quando te perguntam “quem é você” e a resposta começa com nome, idade e profissão, você ganha a cartinha “Volte duas casas” do Jogo da Vida. Nós não somos nossa profissão, nosso cargo ou a empresa em que trabalhamos. Nós somos gente, e gente nasceu para ser feliz.

E aí, será que eu sou feliz?

“Eu sei, mas não devia”, Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Um

O primeiro diálogo, sorriso.
O primeiro olhar, cerveja.
O primeiro beijo, encantamento.
O primeiro desejo, conexão.
O primeiro amanhecer, nirvana.
O primeiro filme, conforto.
O primeiro desentendimento, compreensão.
O primeiro fim de semana, bem-querer.
O primeiro compromisso, cumplicidade.
O primeiro aceno, confiança.

O primeiro vinho,
O primeiro sofá,
O primeiro café da manhã,
O primeiro buquê,
O primeiro domingo,
O primeiro ano,
O primeiro cachorro,
O primeiro Natal,
O primeiro porta-retratos,
O primeiro para sempre.

Dublin, 6 de setembro de 2017.

“O Tempo”, Mário Quintana

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

90 minutos

Quarta, domingo, 90 minutos. Calor, cerveja, lanche, fila, revista, o sentimento único de sentir-se em casa ao atravessar galerias e deparar-se com o relvado. 90 minutos. As cores são de infância, a bandeira é o amuleto, os companheiros são os de sempre, o setor é o mais barato, o estádio é o templo, o esporte é a religião. 90 minutos. Beijo no escudo, olhos fechados, mãos unidas entregues ao firmamento, mandinga. 90 minutos. Impecavelmente uniformizados e acompanhados de crianças, muitas, eles partem do fosso numa caminhada lenta e preguiçosa como funcionários da fábrica voltam do almoço. 90 minutos. Com dois pequenos nos braços e mais outra dezena ao redor, aquele é ovacionado ao cravar as travas no gramado. 90 minutos. Centro-avante, centro das atenções, amado por uns, odiado pelos outros, herói para uns, vilão para todos os outros, é visto saindo de boate acompanhado por duas modelos na antevéspera do jogo. 90 minutos. Penteado assoberbado, calçado multicolorido, salário multimilionário, tem que jogar por amor. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Impecavelmente perfilados, repousam a mão direita sobre o emblema com a seriedade do praça que vai ao front. 90 minutos. Um tiro até seu posicionamento como manda o plano, corrida no lugar, pulo, confere a paisagem. 90 minutos. Milhares de gargantas tentam se fazer ouvir. 90 minutos. Tem que ganhar. 90 minutos. Confere o relógio, sinaliza os capitães, assopra a adrenalina que inflama o espetáculo. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Toque inicial, pancada de meio campo para trás, toque, chute para frente, corrida pela esquerda, desarme do zagueiro. 90 minutos. Na entrevista coletiva, ao vivo no esportivo do meio-dia e pouco, o defensor desafiou o trio ofensivo adversário e não descartou pará-los com força bruta. 90 minutos. Dois grisalhos gritam nomes, instruções, direções, mais nomes, palavrões. 90 minutos. Cânticos incessantes. 90 minutos. Letras acessíveis e melodias arrebatadoras fazem tremer o gigante de concreto. 90 minutos. Apito estridente, cânticos cessados. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. O batedor recua cinco passos da bola posicionada a 11 metros do goleiro imóvel no centro das balizas, que olha fixamente para seu adversário que olha fixamente para lugar nenhum. 90 minutos. Ele bate bem, é dito na fileira de trás. 90 minutos. Um desejo mora no fundo da rede, um desejo resvala nas luvas e corre para a linha de fundo. 90 minutos. Amendoim dois reais. 90 minutos. Muito acontece numa fração de instante: tem um que apita, tem um que corre, tem um que olha, ninguém respira e o amendoim dois reais. 90 minutos. Desfere uma pancada firme como o cento de repetições daquela semana. 90 minutos. A etiqueta da arquibancada diz que não pode comemorar antes. 90 minutos. Foi pouco. 90 minutos. Para fora. 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Tem um que volta ao centro de campo, tem um que olha para cima, tem um que comemora ajoelhado, todos xingam e respiram fundo para xingar ainda mais. 90 minutos. Nas ruas adjacentes, o imoral efeito das bombas e o amargo sabor das balas repelem a multidão. 90 minutos. O embate paralelo entre homens de capacetes e escudos contra homens de braços desnudos. 90 minutos. Filhos da puta. 90 minutos. No meio do corre-corre, o lado mais fraco usa todas as armas ao alcance, o lado mais forte avança impiedosamente com ódio no olhar, uma bomba é lançada, gol. 90 minutos. O grito antes preso na garganta alivia o peso da vida sofrida do brasileiro médio, que pega duas conduções, esquenta marmita em banho-maria e dedica a noite depois do culto para soluçar e odiar com força a semana que vem pela frente. 90 minutos. Foco, metade do anel observa com discrição e desgosto a multidão fervilhante em seu oposto. 90 minutos. Dois amendoim. 90 minutos. Gladiadores deixam o centro da arena evitando os microfones que fabricam manchetes de embrulhar peixe. 90 minutos. Mãe, eu estou bem, você tá assistindo ao jogo? 90 minutos. Apito bala bola carrinho cavalo delegacia escanteio falta. 90 minutos. É só fazer mais um. 90 minutos. Um passe rasteiro desmoraliza a zaga desavisada, encontra conforto nos pés do matador que dispara pelo meio. 90 minutos. É pra fazer. 90 minutos. Fominha, nunca vai pra seleção desse jeito, é moleque. 90 minutos. (Já sabe, né?). 90 minutos. Filho da puta. 90 minutos. Um tiro de córner sobrevoa a pequena área em direção ao segundo poste, prontamente interceptado pelo marcador. 90 minutos. Esse time faz muita falta. 90 minutos. Não faz mais falta que o avô, que o ensinou o amor pelo clube e o levou em tantas partidas até ser levado em outras tantas. 90 minutos. O contragolpe alcança a intermediária com a destreza em que a bandeira quadriculada é erguida. 90 minutos. Não vi vai ter que esperar o Globo Esporte. 90 minutos. É claro que sobrou para a mãe dele também. 90 minutos. Saída rápida, a investida pelo flanco esquerdo termina de maneira trágica, homem ao chão. 90 minutos. Chama o médico, chama a maca, ergue o braço para assinalar à torcida, ouvem-se aplausos. 90 minutos. A multidão não se cala por um bocejo para dar fôlego aos últimos instantes da batalha. 90 minutos. Confere o relógio, três silvos longos apontam o centro de campo e, entregues à exaustão, removem o manto para se dirigirem ao subterrâneo. 90 minutos. Entregues à êxtase, camisas que secam lágrimas emocionadas caminham pelo túnel ao encontro de cavalos, cães e coletes táticos sedentos por mais um confronto. 90 minutos. Cerveja gelada, o trem para casa, o sorriso no rosto para abraçar com força a semana que vem pela frente. 90 minutos.